Fé, Fato e Experiência

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Fé, Fato e Experiência é uma tradução do capítulo 2 do livro “Back to the Cross”, de Watchman Nee, publicado pela Christian Fellowship Publishers (versão Kindle).

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Watchman Nee (1903-1972)

“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem. Pois, pela fé, os antigos obtiveram bom testemunho” (Hb 11:1,2).

Na presente era da graça tudo é obtido “por meio da graça”, o que equivale a dizer que todas as coisas são feitas por Deus a favor do homem. Isso porque “ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida” (Rm 4:4). Dessa maneira, podemos considerar que os tratos de Deus com o homem por meio da graça são um “fato”.

Isso também significa que Deus já fez tudo aquilo que poderia fazer pelo mundo. Uma vez que uma coisa já foi feita, passa então a ser considerada como um “fato”. Nesse caso, o homem não precisa fazer mais nada para sua realização, uma vez que essa obra de Deus já está completa e aperfeiçoada, é um fato. Entretanto, a graça de Deus é uma graça justa, por isso, mesmo já sendo um fato já consumado, demanda pela cooperação do homem.

Mas qual seria a natureza dessa cooperação?

A essência dessa cooperação não se baseia na necessidade de acrescentar algo mais à essa “obra consumada”, mas na consideração de que aquilo que Deus fez é verdadeiro. Isso é chamado de “fé”. Fé é confessar que tudo o que Deus disse e fez é verdade. Fé é aceitar esse fato, considerando-o como algo concreto. Aliás, fé é como um “saque”. Uso esse termo no mesmo sentido usado em uma conta bancária. Alguém tem dinheiro em sua conta e nos faz um pagamento em cheque. Esse é o fato.

Se agora mesmo formos até o banco sacar o dinheiro, isso demonstra que admitimos que o valor inscrito naquele cheque está depositado ali. Em essência, esse saque é realizado pela fé, e uma vez que sacamos do dinheiro, já podemos nos utilizar dele.

Assim poderemos dizer que o dinheiro no banco é o “fato”, o saque é a “fé”, e o gasto do dinheiro é a “experiência” ou “favor”.

Pela graça de Deus já temos os fatos consumados por Ele a favor do homem. Mas o homem ainda necessita da experiência desse fato, e precisa entrar no gozo desse favor. Para desfrutar da graça de Deus de forma experimental, precisamos exercitar a fé para sacar os fatos consumados de Deus. O fato é o que Deus já realizou, e a fé é o que o homem precisa obter. O fato pertence a Deus, enquanto a experiência ou favor cabem ao homem. Fé traduz o fato de Deus para a experiência do homem. Assim, podemos dizer que o que a Bíblia descortina para nós é simplesmente “fato – fé – experiência”.

Olhando Coletivamente

Sabemos que o Senhor Jesus Cristo é “o Verbo [que] se fez carne” (Jo 1:14). Ele é a soma de todas as santas virtudes, o consumador de todas as coisas. Sua vida é a vida de Deus, porque Ele é Deus. Na cruz Ele já realizou a obra da redenção. Todos os que aceitam no coração Jesus como Salvador e Senhor são aceitos por Deus, no exato momento em que exercitaram sua fé. O Senhor os aceita exatamente da mesma maneira que aceitou o Senhor Jesus.

Naquele momento, todas as santas virtudes e perfeições do Senhor Jesus são imputadas sobre o crente. Aos olhos de Deus, a posição do crente diante dEle é a mesma do Senhor Jesus. Assim, Deus vê cada Cristão como vê a Cristo. Tudo o que é de Cristo, passa a ser considerado como pertencendo também ao Cristão, devido a sua união com Ele. Esse, portanto, é um “fato” recebido pelo crente diante de Deus como um Cristão. Esse fato é aquilo que Cristo cumpriu a seu favor. Devido a união do crente com Cristo, tudo que pertence a Ele passa a lhe pertencer.

Esse é o fato realizado por Deus, no qual o crente não tem nenhuma participação. As Escrituras discorrem amplamente sobre isso. O escritor da Carta aos Hebreus usa uma ilustração muito clara sobre esse fato consumado por Deus a nosso favor.

O Testamento do Senhor Jesus

Em Hebreus 9:15-17, ele compara aquilo que o Senhor Jesus fez por nós com uma pessoa que faz um testamento. Nesse testamento, o testador promete dar a “herança” ao beneficiário, mas esse testamento não entra em vigor enquanto ele vive. Então, assim que o testador morre, o beneficiário pode herdar tudo o que ele lhe prometeu. O Senhor Jesus é o Testador. Ele morreu, e, portanto, todas as Suas promessas, imediatamente, são nossas.

Esse é o fato que recebemos dEle. Mesmo considerando essa verdade, não somos capazes de possuir e desfrutar imediatamente de todos os benefícios e provisões de nossa herança, apesar de ela ser indiscutivelmente nossa. Ela nos pertence, e esse fato não pode ser alterado. Ter a herança é uma coisa, desfrutar dela é outra. A posse é o “fato”, o desfrute é a “experiência”. O fato de nossa herança vem do Testador, não de nós mesmos, e o fato deve vir em primeiro lugar, para então podermos ter o desfrute e a experiência.

O ensino dessa ilustração é bastante claro. Em Sua morte o Senhor Jesus nos concede todos os Seus atos justos, santas virtudes, perfeições e vitória, para que possamos ser como Ele diante de Deus, e para que Deus possa nos aceitar como O aceitou. Isso é o que Ele nos concedeu. No momento em que nos tornamos Cristãos tudo isso se torna um fato para nós. Somos, em verdade, tão perfeitos como o Senhor Jesus, apesar de nossa experiência não refletir isso. O fato representa nada menos que todas as graças que Deus realizou e nos concedeu através do Senhor Jesus. Devido à nossa união com o Filho de Deus, todas essas graças nos pertencem. Podemos ter o fato de nossa herança, sem desfrutar da experiência dela. Fato e experiência são muito diferentes um do outro.

“Meu Filho, tu sempre estás comigo, tudo o que é meu é teu”

Hoje muitos cristãos são ricos no fato, porque tudo o que é de Deus é deles, e ainda assim são pobres na experiência, uma vez que, falando de forma prática, eles não têm desfrutado de suas riquezas. O filho mais velho mencionado em Lucas 15 é um bom exemplo disso. Naquilo que diz respeito ao fato, o pai na parábola fala em sua sabedoria: “Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu” (vs 31). Mas a experiência do filho mais velho é declarada em sua reclamação: “nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos” (vs 29). Ele é o filho de alguém rico, e tal é sua posição (que é o fato); ainda assim é possível que ele nunca tenha desfrutado de um cabrito sequer (sua experiência). Devemos ter essa distinção muito clara diante de nós.

Falamos aqui de dois lados, o primeiro é o que Deus já realizou por nós, a posição que Ele nos concedeu; o outro é o que precisamos praticar para desfrutar daquilo que Deus já nos concedeu. Atualmente os crentes transitam nos extremos. A maioria deles não conhece as suas riquezas em Cristo, e não tem ideia de todas as coisas que o Senhor Jesus já realizou por elas.

Essas pessoas planejam e maquinam diversas estratégias para obter a graça de Deus. Elas empregam o máximo de suas forças para realizar atos de justiça, tudo para responder às demandas de Deus e satisfazer o anseio interior de sua nova vida. Outros crentes parecem conhecer a graça de Deus muito bem. Elas consideram que uma vez que o Senhor Jesus já os trouxe à mais elevada posição, elas podem ser plenamente satisfeitas, não precisando mais se preocupar em se exercitar para experimentar todas as graças que o Senhor Jesus lhes concedeu.

As duas atitudes são falhas. Enfatizar por demais a experiência e esquecer-nos do fato nos trará à escravidão da lei. Por outro lado, acentuar o fato e desprezar a experiência nos levará à uma vida licenciosa. Um Cristão precisa conhecer a sua nobre posição no Senhor Jesus a partir das Escrituras, mas também precisa aprender a andar de maneira digna do chamado para a graça, debaixo da luz de Deus.

Nossa Posição em Cristo

Deus já nos estabeleceu na posição mais nobre. Devido à nossa união com o Senhor Jesus, tudo o que Ele realizou e conquistou pertence a nós. Esse fato é a nossa posição. Nosso problema atual, no entanto, é como poderemos experimentar tudo o que o Senhor Jesus já realizou e conquistou por nós. Entre o fato e a experiência temos o passo vital da obra da fé, por meio do qual o fato será traduzido na experiência. Em outras palavras, a fé torna as conquistas de Deus nas práticas do homem. O passo da obra da fé significa simplesmente “possuir” e “administrar”. O Senhor deixou Seu testamento para nós. Desde que Ele morreu, Seu testamento está em vigor.

Não devemos tomar uma atitude casual em relação a isso, mas ao contrário, devemos nos levantar e possuir a herança, para assim desfrutar da bênção. Já somos filhos de Deus, e, portanto, tudo que é dEle é nosso (1Co 2:21-23). Não sejamos como o filho mais velho da parábola do filho pródigo, que tinha a promessa sem respectivo desfrute, devido a sua tolice e incredulidade. Ele nunca demandou, nem tomou da herança, e consequentemente não a possuiu. Se ele ao menos tivesse pedido e exercitado seu direito de filho, não somente o cabrito seria seu, mas também dezenas de milhares de ovelhas! O que necessitamos é apenas exercitar nossa fé na direção das promessas que o Senhor nos concedeu. Tome pela fé daquilo que Deus proveu para nós em Cristo Jesus.

Dois Passos para o Desfrute da Herança

Para possuir e desfrutar da herança, precisamos dar dois passos: precisamos crer que essa herança existe, e então, precisamos nos levantar e tomar posse dela. Não crer na herança irá automaticamente nos impedir de tomar posse dela. Consequentemente, precisamos antes de tudo confessar que Deus verdadeiramente tornou Cristo para nós “sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1Co 1:30). Qualquer coisa que o Senhor Jesus tenha realizado e conquistado é nosso próprio sucesso e vitória.

Se não tivermos esse tipo de fé, seremos privados para sempre da esperança do desfrute da experiência espiritual, como também iremos de fato ofender a Deus na medida em que duvidamos de Sua obra. Ademais, podemos facilmente observar que as pessoas do mundo administram suas propriedades com sua força carnal. Precisamos gerenciar nossa herança espiritual com poder e força espirituais, o que para nós é fé. Precisamos dar o passo do exercício da fé para nos apropriarmos da nossa herança no Senhor Jesus, usando e administrando isso como se essa propriedade espiritual fosse nossa.

A Terra de Canaã

Temos outro exemplo nas Escrituras que pode ser útil para ilustrar a relação entre o fato, fé e experiência, e que é encontrado no Antigo Testamento. Essa é uma parte da história Bíblica que se relaciona com a entrada em Canaã por parte dos filhos de Israel. Nos dias antigos, Deus prometeu dar-lhes a terra de Canaã. Ele prometeu isso de forma pessoal à Abraão, Isaque, Jacó, e à milhares de pessoas que saíram do Egito. Naquilo que diz respeito a Deus, Ele já deu a eles aquela terra. Ele prometeu lutar por eles e leva-los a conquistar todos os seus inimigos. Então temos o fato de que Deus lhes deu a terra e os seus habitantes. Mas apesar desse fato, eles ainda não tinham passado pela experiência.

Apesar dessa terra ser deles no fato, eles ainda não possuíam um centímetro sequer dela em suas experiências pessoais. Foi, portanto, necessária a admoestação: “Subamos e possuamos porque, certamente, prevaleceremos contra ela” (Nm 13:30). Devido à sua falta de fé, no entanto, eles não possuíram a terra (experiência) apesar de Deus já ter lhes dado Canaã (fato). Uma geração se passou, e então Deus disse a Josué: “Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado, como eu prometi a Moisés” (Js 1:3).

Eles precisariam possuir a terra que Deus lhes prometeu por meio de suas pisadas, com a sola de seus pés. E esses, que foram a segunda geração, de fato a possuíram. Isso nos ensina o segredo de experimentar a perfeição de Cristo. Deus já nos deu tudo que Cristo é, e o que Ele faz, e tudo que é dEle é nosso. Mas, agora devemos experimentar tudo que é dEle. Para que isso se torne nossa experiência, não temos outra alternativa além de confessar que Canaã é boa, e pela fé, trilhar com as solas de nossos pés, passo a passo, cada centímetro da terra, possuindo-a. Fé – fato – experiência.

Definições

“Fatos” são as promessas de Deus, Sua redenção, Sua obra e os Seus dons. “Fé” é como as pessoas acreditam em Deus, confiando em Sua obra e redenção, e recorrendo à Suas promessas. Fé é uma atitude operante e um processo que traduz o fato de Deus na experiência do homem. “Experiência” é viver uma vida cristã normal, por meio da fé em Deus. É expressar a vida de Cristo na caminhada diária. É provar do sucesso e vitória de Cristo pela demonstração prática do fato de Deus. As histórias daqueles homens de Deus registradas nas Escrituras demonstram essas realidades em suas vidas. Todos os crentes, incluindo aqueles que ministram a palavra de Deus, deveriam conhecer a inter-relação entre esses três aspectos da verdade. Caso contrário, eles não serão claros em suas vidas, nem em suas ministrações.

O Fato da Expiação

Essas pessoas terão dificuldades no estudo das Escrituras, pois elas lhes parecerão cheias de contradições. Ainda temo não ter sido claro o suficiente a respeito desses princípios. Assim, tentarei examiná-los aplicando-os sobre algumas grandes verdades Bíblicas. Nós, Cristãos, temos experimentado a morte substitutiva do Senhor Jesus, e temos experimentado o efeito de Sua redenção. A expiação é a experiência do pecador. Nós, cristãos, já fomos redimidos, e a expiação é uma experiência passada para nós. Só mencionamos isso para clarificar a relação entre o fato, a fé e a experiência. A expiação é um ensino fundamental que precisamos entender claramente. A obra redentora do Senhor Jesus Cristo é a favor do mundo inteiro. Temos as seguintes Escrituras que testificam disso:

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1:29)

“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3:16a).

“Ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro” (1Jo 2:2).

“O qual a si mesmo se deu em resgate por todos” (1Tm 2:6).

“Porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens” (1Tm 4:10).

Ao observar algumas das passagens acima, vemos que a redenção do Senhor Jesus foi realizada pelo mundo inteiro. Consequentemente, todos os homens têm a possibilidade de ser salvos. A expiação do Senhor é um fato consumado, entretanto, nem todos são, de fato, salvos. Isso também é revelado nas Escrituras.

Se alguém não conhece o ensino da “fé”, pode presumir que todos serão salvos, tanto os que creem na obra substitutiva do Senhor, como aqueles que não creem nela.

Olhando de forma superficial, alguém pode imaginar que uma vez que Jesus morreu pelo mundo todo, então todos morreram, independente de crerem nesse fato ou não. Isso pode parecer até racional, mas sem dúvida não é, porque ao adotarmos esse ponto de vista, a responsabilidade do pecador seria completamente desconsiderada, e os crentes não teriam a necessidade de pregar o evangelho. Verdade, as Escrituras dizem que Cristo morreu pelo mundo todo, mas também nos afirmam que aqueles que crerem serão salvos. Vemos isso nos seguintes versos:

“Para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16b).

“Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18).

“Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (At 16:31).

“Justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem” (Rm 3:22).

“Para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3:26).

“vossos pecados são perdoados, por causa do seu nome” (1Jo 2:12).

Podemos citar diversos trechos das Escrituras, mas os citados acima são suficientes para demonstrar que o homem precisa crer. Isso indica que apesar de Cristo ter morrido pelo mundo todo, ainda assim, cada homem precisa considerar a morte de Cristo como sua própria morte, ou isso não lhe será concedido. A Bíblia diz: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”, mas essa passagem não acaba aí, continuando assim: “para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Pois o “Deus vivo, Salvador de todos os homens” (1Tm 4:10a) enviou Seu Filho para o mundo para morrer pela humanidade. Assim, Ele é capaz de ser o Salvador de todos os homens – “especialmente dos fiéis” (1Tm 4:10b), uma vez que os fiéis são aqueles que creem.

Tendo crido, a experiência se seguirá. Ao crer no fato de Deus, a manifestação desse fato segue naturalmente. Leia os seguintes versos das Escrituras:

“Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado” (Jo 3:18).

“Quem… crê… tem a vida eterna” (Jo 5:24).

“Para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16b).

“Justificados, pois, mediante a fé” (Rm 5:1).

Assim, todos os que creem na salvação que Deus proveu para eles como um fato consumado e nela se apoiam, são salvos.

O Fato de Nossa Morte com o Senhor

Vamos observar, então, o fato da nossa “morte com o Senhor” para explicar o fato, fé e experiência. Os crentes precisam estar plenamente conscientes de sua morte conjunta com Cristo, da mesma forma como estão familiarizados com a redenção. O fato é que quando Cristo morreu na cruz, Ele não apenas morreu pelos pecadores, mas também os levou a morrer junto com Ele. Ele não morreu apenas para o pecado, mas morreu também pelos pecadores. A morte dos pecadores com Jesus na cruz é um fato, e temos os seguintes textos das Escrituras para provar isso:

“Um morreu por todos; logo, todos morreram” (2Co 5:14b).

“Sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem” (Rm 6:6).

“Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6:2).

A partir desses versos, percebemos que, aos olhos de Deus, os crentes foram crucificados com Cristo. Podemos não conhecer esse fato, e por isso viver tentando crucificar a nós mesmos. Diariamente tentamos, mas falhamos em ser crucificados, por não saber que já estamos mortos em Cristo. O que precisamos não é crucificar a nós mesmos, mas usar a fé que toma Sua morte, considerando-a como nossa. O batismo é a expressão e confissão da fé. “Batizados na sua morte” (Rm 6:3). Isso é confessar e se apropriar de Sua morte por meio da fé.

Apesar de termos morrido, e a morte e co-morte serem um fato consumado, ainda recebemos o seguinte mandamento de Deus: “considerai-vos mortos para o pecado” (Rm 6:11). Esse considerar é obra da fé, e não se trata de um olhar para nós mesmos como mortos, porque isso nós não podemos fazer. Podemos olhar para nós mesmos da aurora até o anoitecer, mas será que conseguiremos nos ver realmente mortos? Quanto mais olharmos para nós mesmos, mais vivos estaremos, e perceberemos como somos inclinados ao pecado, até mesmo ao ponto de amar pecar.

Apenas em “considerar-nos”, por meio da fé, como mortos em Cristo, é que Sua morte passa a ser nossa morte, e então experimentamos nossa co-morte com Cristo. Tomando por base os versos citamos acima, de pessoas que nos relataram essa experiência da co-morte, podemos tomar o apóstolo Paulo como um excelente representante dessa verdade. Ele escreveu: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gl 6:14), falou sobre “a comunhão dos seus sofrimentos” (Fo 3:10), dizendo ainda: “estou crucificado com Cristo” (Gl 2:19).

Se os crentes desejam desfrutar dessa experiência de co-morte com Cristo em suas vidas, não devem tomar seus próprios caminhos, mas o de Deus. Temos o fato, a fé e a experiência. O crente morreu com Cristo na cruz. Acreditamos nisso?

Aceitamos esse fato e nos consideramos como mortos? Se crermos, teremos a mesma experiência de co-morte assim como Paulo creu e experimentou. Todos os ensinos das Escrituras relacionados aos tratos de Deus com o homem sempre seguem esse procedimento: fato, fé e experiência. O que quer que Deus tenha realizado, já é perfeito e completo. Seus caminhos com a humanidade são dirigidos no sentido de cumprir todas as obras por eles, e pedir que tomem posse de Sua obra pela fé, sem confiar em nenhum método humano. Isso porque Ele lida com os homens em graça, não demandando nenhuma obra deles (Rm 4:4). Esse princípio se sustenta com respeito a ensinos tão importantes como a santificação, vitória e assim por diante.

O Fato da Santificação

A santificação não é uma tarefa nossa, mas é realizada por Deus a nosso favor: “Por isso, foi que também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta” (Hb 13:12). Novamente, lemos: “com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” (Hb 10:14). Santificação é um fato consumado. Somos santificados porque Jesus morreu. Entretanto, 1 Pedro 1:15 nos indica o seguinte mandamento: “tornai-vos santos”. Mas, então, por que o apóstolo disse isso?

Porque apesar do fato dos crentes já serem santificados, isso é apenas um fato de Deus, que ainda não é manifestado na experiência de suas vidas. Para sermos santificados é necessário que nos apossemos da santificação que a morte de Jesus nos preparou. Precisamos tomar essa santificação como nossa, antes que possamos viver tal vida.

O Fato da Vitória sobre o Mundo

A questão da vitória sobre o mundo segue o mesmo princípio. Primeiro a obra de Cristo já foi consumada, temos o fato de Deus. Jesus disse: “Eu venci o mundo” (Jo 16:33). A seguir temos nossa fé, porque a palavra de Deus também atesta: “esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5:4). Finalmente, nos apossamos da vitória de Cristo, e vencemos o mundo. O terceiro passo é nossa experiência de vida, depois de crermos.

O fato é uma obra de Deus, a fé é nossa confiança nessa obra realizada por Ele, e experiência é essa obra manifestada em nossas vidas de forma prática. Ainda assim, não apenas a santificação e vitória seguem esse mesmo princípio, mas todos os outros ensinos principais de Deus em Seus tratos com o homem. Todos os fatos de Deus são obras de Deus, não esforços humanos. Esses fatos não podem ser alcançados por meio da oração, obra, sacrifício e abnegação do crente. Os fatos de Deus devem ser realizados por Ele, e todas as suas realizações são cumpridas em Cristo.

O Exemplo dos Coríntios

A fé é o único caminho pelo qual poderemos receber desses fatos, não existe outra maneira. Vamos ilustrar como o fato de Deus e a experiência do homem são distantes. De acordo com o fato de Deus, a assembleia de Corinto era composta por aqueles “santificados em Cristo Jesus” (1Co 1:2). Eles eram o templo do Espírito Santo (1Co 6:19), “lavados, santificados… justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1Co 6:11). Mas, no que se relacionava à experiência deles, o que descobrimos? “O só existir entre vós demandas já é completa derrota para vós outros… Mas vós mesmos fazeis a injustiça e fazeis o dano” (1Co 6:7,8), e “deste modo, pecando contra os irmãos… é contra Cristo que pecais” (1Co 8:12).

Por que esse era o estado prevalecente entre eles? Isso ocorreu porque eles falharam em tomar posse da graça (fato) de Deus, que Ele proveu para eles. Essa era a falha deles. A experiência elevada que temos no fato não deve ser experimentada em nossa vida por meio de nossas próprias tentativas, diligência, aflições, pretensão e esforço.

Nossa Experiência

Para experimentar a realidade do fato de Deus a nosso favor, apenas precisaremos exercitar a fé para nos apossarmos daquilo que o Senhor já realizou por nós. Diariamente devemos confessar aquilo que o Senhor realizou (fato), reconhecer isso como verdade, e assim tomar posse disso com verdadeira fé. De maneira geral, isso quer dizer que devemos confessar que a obra realizada por Cristo é concreta e efetiva em nossa vida. Em momentos de tentação, no entanto, precisamos agir apoiados nessa fé, como se já tivéssemos obtido aquilo que Ele nos deu. Logo a experiência será real em nossas vidas.

Um crente é mais espiritual apenas por ter vivenciado mais experiências espirituais, e tais experiências não são originadas nele mesmo, mas sim em fatos espirituais. A vida do crente espiritual é completamente dependente dos fatos que Deus realizou por ele, não nele mesmo. O fato é o fundamento, a fé é o processo, a experiência é a consequência.

Em outras palavras: fato é a causa, fé é o caminho, e experiência é o efeito.

A experiência da vida espiritual do crente é apenas o resultado final, o sucesso. Antes que houvesse uma profundidade em sua vida espiritual, já havia a obra consumada do Senhor Jesus, servindo como fonte de tudo. É absolutamente impossível para o crente obter santidade ou vitória por meio de seus próprios esforços.

Para ser santo, vitorioso e morto para o ego, ele não deve usar suas próprias forças, ao contrário: (1) deve confessar que é santo, vitorioso e morto para o ego no Senhor Jesus; e (2) agir como se fosse santo, vitorioso e morto para o ego, porque crê estar unido com o Senhor Jesus em vida. Todas as experiências que alguém tem ou deseja ter, são de fato uma experiência provada pelo Senhor Jesus. Tomar posse pela fé é considerar aquilo que é do Senhor Jesus como nosso. Com uma atitude e ato e fé, alguém usa aquilo que considera como seu.

O Papel do Espírito Santo

Ainda assim, em meio a tudo isso, não devemos nos esquecer do Espírito Santo. Como o fato de Deus pode ser tornar na experiência do homem, por meio da fé? Isso é devido à obra do Espírito Santo. Isso porque quando nós cremos no fato demonstrado por Deus nas Escrituras e exercitamos a fé para nos apossarmos dele, o Espírito Santo coloca sobre nós todas as graças que Deus já realizou em Cristo e as transforma em realidades em nossas vidas, para que assim possamos experimentá-las de forma pessoal. Nossa confissão e nosso tomar posse com fé é a porta aberta para a obra do Espírito Santo, quando Ele acrescenta em nossas vidas aquilo que o Senhor já realizou, nos capacitando para possuir essas experiências práticas.

Todas as obras do Espírito Santo são baseadas nos fatos de Deus. O Espírito não realiza nenhum fato por nós, Ele simplesmente torna o fato consumado de Deus real e vivo em nossas vidas. Deus já cumpriu o fato no Senhor Jesus, e assim devemos exercitar a fé para confessar e tomar posse desses fatos, assim como devemos confiar no Espírito Santo para acrescentar em nossas vidas aquilo que Deus realizou, para que possamos ter a genuína experiência espiritual.


Watchman Nee (1903-1972) nasceu em Swatow, na China. Quando entregou completamente sua vida ao Senhor, foi inundado por um amor pela Palavra de Deus, que o levou a estudá-la incessantemente, de maneira que rapidamente a leu por diversas vezes. Logo se tornou uma testemunha de Cristo, determinado a seguir a Palavra de Deus e nada mais. Seu ministério exerceu uma enorme influência na China, dada a sua ampla visão a respeito da Igreja do Senhor e do eterno propósito de Deus. Quando os comunistas assumiram o controle da China, Nee compreendeu que deveria permanecer ali, apesar de saber que isso provavelmente lhe custaria sua liberdade. De fato, ele foi sentenciado à prisão pelo regime, permanecendo preso por 20 anos, até a sua morte.

Pela soberania do Senhor, as mensagens compartilhadas por esse irmão foram disseminadas por todo o mundo enquanto ele estava aprisionado, e até os nossos dias são fonte de vida e edificação para muitos de nós. Vários títulos de sua autoria são  publicados na língua portuguesa, ainda que grande parte de sua obra ainda não foi traduzida. As seguintes editoras publicam ou comercializam alguns de seus livros:

Editora dos Clássicos
Editora Restauração
Edições Tesouro Aberto
Editora Vida

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