A tentação do Filho e a vocação da Igreja

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“A tentação do filho, a vocação da Igreja” são notas baseadas em um resumo do capítulo 2 do livro “Thine is the Kingdom, and the Power, and the Glory”, de T. Austin-Sparks. É importante salientar que não se trata de uma tradução do texto original, mas da nossa compreensão daquilo que o autor escreveu, podendo conter divergências em relação ao seu entendimento. Aqueles que se sentirem movidos pelo Espírito Santo podem ir direto à fonte, pois certamente receberão ainda mais edificação ali. 

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“A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo… Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto”. (Mateus 4:1, 8-10)

“Não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o reino”, o poder e a glória para sempre. Amém]!” (Mateus 6:13).

“Pois não foi a anjos que sujeitou o mundo que há de vir, sobre o qual estamos falando… Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés. Ora, desde que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou fora do seu domínio. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas; vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem. Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles”. (Hebreus 2:5-10).

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Podemos perceber uma relação entre a passagem citada da carta aos Hebreus e as outras passagens selecionadas de Mateus. No capítulo 4 de Mateus, vemos o último Adão e segundo Homem entrando em uma esfera de provação pelas mãos do Maligno. O Senhor foi tentado no deserto o Senhor com base no mesmo princípio da tentação do primeiro Adão, a saber: cederia ao desejo de ter as coisas em si mesmo, para si mesmo, e a partir de si mesmo, em vez de tê-las partindo de Deus com base na fé e na dependência?

Com base no registro de Mateus, descobrimos que o último Adão triunfou exatamente onde o primeiro Adão falhou. Ele escolheu ter tudo em Deus, preferindo nada ter se não fosse a partir dEle. Sua declaração: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a Ele darás culto” revela que o Senhor Jesus reconheceu e defendeu os direitos de Deus.

Quando passamos para o capítulo 6 de Mateus, vemos o Senhor junto com Seus discípulos instruindo-os a respeito de oração. Nessa instrução percebemos alguns princípios e fatores que Ele mesmo enfrentou na situação do deserto, descrita no capítulo 4.

Nessa oração modelo temos a menção de uma tentação a partir do Maligno, e vemos também o reconhecimento de que todas as coisas vêm de Deus, devendo trazer a Ele a glória: “Teu é o reino, o poder e a glória.”

Por meio dessas palavras e percebendo os princípios espirituais ali enunciados, vemos que o Senhor Jesus ensina Seu povo a respeito de dois pontos fundamentais: permanecer em uma posição repúdio ao Maligno e de apego ao Pai, Seu reino, Seu poder, Sua glória. Somos convidados a testificar disso.

É exatamente isso que a Igreja é chamada a fazer: por um lado permanecer nessa brecha, repudiando ostensivas reivindicações constantemente feitas pelo Maligno, e, por outro lado, declarar e defender qual é a posição legítima de Deus e aquilo que pertence a Ele: o reino, o poder, a glória.

Esta posição é constantemente questionada em nossas próprias vidas e se torna a questão central da vocação da Igreja.

A Posição de uma Igreja Governada pelo Espírito Santo

Consideremos três pontos que serão de grande ajuda para compreender isso. O primeiro é a posição que a Igreja deve ser encontrada quando é governada pelo Espírito.

Permanecendo na Brecha

“A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4:1).

A vida de uma pessoa que é governada e dirigida pelo Espírito Santo será conduzida à brecha, ao ponto onde a principal questão a ser considerada será o testemunho dos direitos de Deus, da Sua honra e de Sua glória.

Essa é certamente uma marca do governo do Espírito Santo. Quando o Espírito nos dirige, essa consequência é inevitável. Isso pode nos trazer conforto em todas as nossas aflições. 

Satanás muitas vezes tenta tornar nossa aflição e sofrimento em motivos de acusação insinuando que os acontecimentos indicam que deve haver algo errado conosco, ou que o Senhor deve estar contra nós. Ele alega que as coisas não estão acontecendo como deveriam, o que é absolutamente oposto da verdade.

Olhe para o Filho de Deus no deserto, veja o Senhor sozinho, passando necessidade e pressionado pelo inimigo. Sem dúvida alguma Ele sofreu na alma e estava enfraquecido em Seu corpo. Saiba que a tentação ordenada por Deus é uma situação preparada pelo Espírito Santo para a produção de um testemunho para a glória de Deus, para o Seu reino de Deus, e manifestação de Seu poder.

Portanto, é um fator glorioso reconhecer isso. Seremos colocados na posição onde testemunho será manifestado em nós, mesmo se isso acontecer em um dia de ataques ferozes e terríveis do inimigo. Esse é o retrato de uma igreja dirigida pelo Espírito Santo. 

Sustentando a Espiritualidade do Reino

O próximo ponto se relaciona de forma bem próxima a isso é que uma vida ou um povo governados e dirigidos pelo Espírito Santo chegarão a um ponto onde tudo que envolve o reino, poder e glória do Senhor será essencialmente espiritual. 

Esse é um verdadeiro desafio. A Igreja perdeu seu testemunho real, poderoso e efetivo porque buscou um reino, poder e glória tangíveis, e com isso Satanás triunfou grandemente.

Foi assim que o inimigo tentou o Senhor Jesus, mas sem sucesso. Ele tem desferido esse mesmo tipo de ataque contra a Igreja, e triunfou quando a atraiu para a esfera daquilo que é temporal e terreno.

Vejamos o exemplo do Senhor Jesus no deserto conforme o texto de Mateus, lembrando que todo esse evangelho está relacionado ao reino. O reino, o poder e a glória estavam com o Senhor Jesus. 

“Vimos a sua glória”, disse o apóstolo João, “glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1:14). Esse não é o tipo de glória que os homens apreciam nessa terra, como bem podemos ver em nossos dias. A glória que é exibida diante dos olhos do mundo nada tem de graça e de verdade. 

O Senhor Jesus manifesta outro tipo de glória, que é oposta à glória deste mundo: a glória cheia de graça e verdade. Sabemos que o Senhor não foi apreciado entre homens de mente carnal e mentalidade mundana. A Igreja deve chegar àquele ponto que será despojada de tudo que o homem denomina reino, poder e glória – da mesma forma que ocorreu com sua Cabeça no deserto – para demonstrar um reino, poder e glória superiores, ainda que não seja apreciada pela mente natural.

“Porque o reino de Deus não é comida nem bebida” (Rm 14:17). 

Mas Satanás disse: “Ordene que essas pedras se tornem pães”. A palavra de Deus para ele seria: “O reino de Deus não é comida nem bebida” (Rm 14:17). O poder não é demonstrado de maneira carnal sobre os homens, mas sim quando as forças espirituais são destronadas e perturbadas – a glória é espiritual.

O reino, o poder e a glória estavam com o Senhor, mas estavam velados, não estavam em manifestação. Todas as questões ali envolviam uma esfera que não possibilitava nenhuma gratificação à vida natural do Senhor. Satanás estava empenhado em incitá-Lo a gratificar Sua alma, Sua vida natural, Sua própria humanidade. 

No entanto, o Senhor Jesus se recusou a se mover naquele plano, naquele reino, e sustentou Seu relacionamento celestial com Seu Pai. Foi exatamente aí que o reino veio, e o poder e a glória foram sentidos.

A igreja passará pelas mesmas experiências do Cabeça, pois está unida a Ele. Precisamos nos lembrar de Hebreus 2:11:

“Pois, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só”.

Isso nos traz novamente ao ponto: “Que é o homem, que dele te lembres? Ou o filho do homem, que o visites? 

O que está envolvido aqui? Ainda veremos a sujeição do “mundo que há de vir”. Não estamos falando dos anjos, mas do homem. Ainda não vemos o homem coletivamente nessa posição Divinamente designada. Todavia, nós vemos o Homem em Quem todos os outros serão encontrados, nós O vemos lá no trono, Ele foi adiante de nós, depois O seguiremos. Nos dirigimos para a mesma posição para a qual Ele foi conduzido, para o mesmo fim: o reino, o poder e a glória, com Ele e nEle.

Atestando o Pleno Triunfo de Cristo

Há, no entanto, uma terceira coisa muito importante. Não somos chamados a fazer a mesma coisa que o Senhor Jesus fez. Há uma diferença fundamental entre o relato de Mateus 4 e Mateus 6. Em Mateus 4 vemos que o Senhor combateu o bom combate, estabelecendo a fundação do reino, do poder e da glória. Tudo foi resolvido no deserto, quando o Senhor saiu de lá, Ele tomou posse da vitória. 

É claro que a plenitude disso foi cumprida na Cruz e ali tudo foi plenamente realizado; mas no deserto ocorreu um encontro inicial básico com o inimigo, e o Senhor emergiu dali Vitorioso no poder do Espírito. Talvez possamos afirmar que ali vimos uma questão potencialmente resolvida, pois ainda haveria muito mais batalhas pelas mesmas questões a ser travadas ao longo da vida do Senhor.

Quando você chega ao Capítulo 6, onde nós somos introduzidos, não somos colocados na posição de combater nessa batalha para a vitória, e devemos ser muito cuidadosos para que o inimigo não obtenha vantagem sobre nós por termos uma mentalidade errada, considerando que o assunto ainda não foi definitivamente resolvido pelo Senhor Jesus.

Devemos cuidar aqui, porque o inimigo está sempre tentando nos colocar em uma posição onde acreditamos que a questão não esteja resolvida. Se ele conseguir obter alguma fraqueza nesse assunto, vencerá a batalha.

No Capítulo 6, a Igreja é colocada em uma posição, não em um combate, trata-se de algo muito positivo. 

“Teu é o reino, e o poder, e a glória”, não ‘Teu será o reino, quando a batalha acabar’. Veja, este é um Livro de leis espirituais. Tudo isso será amplamente descortinado nas últimas porções do Novo Testamento. Portanto, aqui vemos a Igreja posta de joelhos na batalha, na presença do Maligno que a ataca ferozmente, e sua posição é a de atestação, declaração, repúdio.

Com efeito, é um repúdio: ‘Teu não é o reino, o poder e a glória, mas do Senhor é o reino… o poder…e a glória’. Antes que você possa vencer o ataque do inimigo, precisa ter esse fato bem definido: essa questão já foi vencida e essa posição já foi estabelecida.

A vocação da igreja

Essa é uma base que possibilita muitas considerações valiosas. Por que se faz necessária a presença da Igreja aqui na terra hoje? O principal objetivo e propósito da Igreja permanecer nesse mundo é para ministrar para a glória de Deus. 

Esse é o primeiro ponto, seja o que for que isso signifique, independentemente de como isso se tornará efetivo. Esse é o fato principal, acima de tudo.

O povo do Senhor está aqui, acima de tudo, para ministrar para a glória de Deus.

Existe uma Epístola que fala mais sobre a Igreja do que qualquer outra no Novo Testamento – a carta aos Efésios – e ela traz essa referência. Certamente estamos bastante familiarizados com essas palavras:

“… a fim de que fôssemos para louvor da sua glória” (1:12).

“… o Espírito Santo da promessa, que é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para louvor da sua glória” (1:14).

“… a ele seja a glória na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre” (3:21).

“… para que apresente a si mesmo a igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante” (5:27).

“Uma igreja gloriosa”; “para o louvor da sua glória”.

Deixe-me repetir: O objetivo principal para o qual o povo do Senhor está aqui hoje, e o motivo pelo qual estará onde quer que seja, por toda a eternidade, por todos os tempos e para todo o sempre, é para ministrar para glória a Deus. 

Isso significa que estamos aqui para sustentar um testemunho para a glória de Deus. Há muitas maneiras der fazer isso, e seria totalmente impossível para mim estabelecer como a glória de Deus é ministrada pela Igreja. 

Mas esse ponto deve governar nossas mentes e nossa atitude em todas as nossas considerações. 

Tudo se resume nisso: O ponto que deve governar TODAS as coisas em nossas vidas – nossa conduta, comportamento, discurso, relacionamentos, posições assumidas, atitudes, nossa vida doméstica – é: isso traz a glória a Deus? É para isso que estou aqui. Se pudéssemos compreender isso, faria uma enorme diferença.

Vamos nos perguntar: Por que estou aqui? Que interesses tenho eu, quais são os meus propósitos e o que, acima de tudo, é o que terá marcado meu curso nesta vida?

Nossa resposta a tal pergunta provavelmente seria: ‘Senhor, estou aqui para Ti’; ‘Estou aqui na terra para Deus.’ 

Mas o que você quer dizer com isso? A aplicação prática disso é o que de fato importa.

O que você quer dizer com: ‘Estou aqui para Deus.’

Você provavelmente começará a lembrar das inúmeras atividades que realiza, todos os tipos de coisas que pode fazer para o Senhor.

Ao longo de nossas vidas aqui, quando realmente estamos debaixo do governo do Espírito Santo e plenamente sujeitos ao Senhor, chegamos a um ponto em que se torna bastante claro para nós que o que de fato importa para o Senhor não é o que fazemos para Ele. Não é uma questão das coisas realizadas para o Senhor, de forma alguma!

O que realmente importa para Ele é o quanto Ele recebe glória em nós e por meio de nós. Muitas vezes o Senhor entende que ministramos mais para Sua glória quando somos deixados de lado, sem fazer nada.

Nessas horas, nos perguntamos: ‘Por que isso? Por que não tenho permissão para fazer aquilo? Por que estou calado, limitado? Se ao menos pudesse trabalhar para o Senhor! O Senhor me tirou tudo’. 

Pode até parecer que o Senhor nos cercou, aprisionou, mas se esperarmos o suficiente, se formos verdadeiros de coração e ouvirmos o Senhor, aprenderemos pelo Espírito que o que o Senhor busca não é que façamos tantas coisas para Ele, mas que Ele receba mais glória por meio de nós.

E quem de nós se atreve a dizer que Deus não manifesta glória por meio de alguns que jamais foram capazes de fazer muitas coisas pelo Senhor visivelmente, mas O glorificaram em suas aflições?

É verdade, não é? Precisamos reconhecer que estar à disposição do Senhor não significa fazer aquilo que pensamos que O agrada, mas sim fazer aquilo que o Senhor decidir que será para Sua glória. 

Nossa atitude deve ser de contentamento com qualquer coisa que for realmente para a glória de Deus, ainda que sejamos incapazes de ver, sim, a aceitaremos. Isso é muito importante. A Igreja está aqui para isso – para Sua glória. Essa deve ser a consideração que governa TUDO em TUDO.

Compreendendo os tratos de Deus para conosco

Isso também deve determinar para nós o sentido dos tratos do Senhor para conosco. Seus tratos conosco às vezes são por demais estranhos, extremamente difíceis para nossa carne! 

O caminho pelo qual Ele nos conduz é doloroso para a nossa carne, mas temos que julgar todos os procedimentos do Senhor conosco à luz da quantidade de glória que Ele está obtendo na esfera invisível, onde os verdadeiros valores espirituais podem realmente ser avaliados. 

Podemos ter isso bem claro diante de nós: que Seus tratos para conosco são positivos, para que possamos ser para o louvor de Sua glória, nós que de antemão confiamos em Cristo.

O primeiro amor

Podemos ver a condição da Igreja de Éfeso quando Paulo escreveu sua epístola e depois na carta de Apocalipse 2:1-7. Ouça o que o Senhor tem a dizer a essa igreja: ‘Conheço as tuas obras, o teu trabalho e a tua paciência (conheço as coisas a teu respeito, todas as coisas que te dizem respeito) … mas … deixaste o teu primeiro amor… ao que vencer …’.

Vemos que vencer está direta e imediatamente relacionado com o primeiro amor. 

O que é primeiro amor? Resumidamente, o primeiro amor certamente carrega consigo a ideia de não há outra pessoa em todo o universo que possa se comparar com aquele que é amado. 

Ninguém mais pode ver toda essa magnificência, todo esse esplendor, tudo que é tão maravilhoso para aquele que ama, e não há outro que se compare ao objeto de sua afeição. 

Aquele que é amado é TUDO, TUDO que é bom, TUDO que é certo, TUDO que é adequado, TUDO que é esplêndido, e ninguém deve ousar dizer uma palavra contrária a isso.

O coração e a vida estão inteiramente envolvidos nisso. O mundo, o horizonte, TUDO é limitado por aquele objeto de afeição. 

Esse é o primeiro amor. ”Deixaste o teu primeiro amor”.  Oh, sim, você está fazendo diversas coisas! Ah, mas o essencial, central, básico não está mais lá.

Uma Igreja gloriosa

Acho que é por isso que as palavras da carta aos Efésios, no capítulo 5, são proferidas em relação a Cristo e Sua Igreja:

“Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” [Ef 5:27].

O que é isso: “não ter mancha, nem ruga, nem coisa semelhante”? Uma mancha significa contaminação. O que é estar incontaminado? 

No Antigo Testamento, quando Israel tinha qualquer tipo de comunhão voluntária com outra nação, isso era chamado de fornicação. A filha virgem de Israel estava caindo de sua castidade. Esse é o grande clamor dos profetas sobre Israel. Eles haviam cometido fornicação, tinham decaído de sua pureza. 

Como isso aconteceu? Simplesmente se entregando às outras nações e aos deuses das outras nações. 

No Novo Testamento, tudo está resumido em uma palavra: o mundo. O mundo traz à baila seus interesses. O Senhor não é mais tudo. Olhamos por cima da cerca e buscamos satisfazer algum capricho fora dEle. Aqueles que seguem o Cordeiro para onde quer que Ele vá são aqueles que não estarão contaminados. É apenas uma questão do Senhor ser TUDO. Isso é ser limpo, sem mancha, imaculado.

“Ou ruga”.  A palavra grega aí é ‘contração’. Claro que significa a mesma coisa. 

O que é uma ruga? Uma marca do tempo, um sinal da idade. A ruga representa algo daquela vida que não é eterna e renovada do Senhor. É a marca do tempo; algo desse mundo deixou sua marca. A Igreja chegou a uma esfera onde passa a ser influenciada pela mudança, pelo que é passageiro, pelo transitório, pois desceu à terra e se tornou parte daquilo que está constantemente perecendo e decaindo.

Para que tal Igreja seja apresentada como uma Igreja gloriosa, deve haver um viver somente no Senhor, pela vida do Senhor, e o Senhor sendo a fonte de nossa satisfação. Esse é um nível de vida mais elevado. Acredito que quanto mais o Senhor se torna a nossa satisfação, mais nós vamos descansar nEle e menos rugas teremos. Sabemos em nosso coração que quanto mais o Senhor se torna nossa satisfação, menos nos preocupamos e mais descansamos. Esse é um bom remédio para rugas! O Senhor nos ajude a aprender essa lição!

A Igreja gloriosa é aquela que está satisfeita com o Senhor e, portanto, não está manchada pela contaminação com o mundo, e não é marcada por aquilo que está perecendo e decadente, relacionado ao tempo. 

Quando o primeiro amor acaba, surgem as rugas e outras considerações. Isso acontece na vida humana. Você começa a buscar algo em outro lugar quando o primeiro amor se vai. Os interesses são divididos.

O vencedor, então, é aquele que não tem interesses divididos, não olha para outro lugar, é aquele para quem o Senhor é TUDO, a plena satisfação do coração. “Abandonaste o teu primeiro amor. Considere de onde caíste.”

Isso vai direto ao cerne da questão do vencedor. Significa simplesmente que a igreja ou o vencedor voltou para lugar para o qual fora designado, para ministrar para a glória de Deus, e nunca poderemos ministrar para a glória de Deus a menos que estejamos totalmente tomados por Ele. Isso é o que fez do Senhor Jesus o principal Vencedor.

A realização prática de ministrar para a glória de Deus

Na prática, ministrar para a glória de Deus e para Sua satisfação significa, a meu ver, duas coisas:

Manter e preservar uma revelação completa de Deus aqui, para o Seu povo. Me remeto ao apóstolo Paulo, um vencedor, de fato. Vemos nele alguém cuja devoção ao Senhor foi sem reservas, pois ele bem podia dizer: “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3:8).

Vemos nele uma representação da Igreja gloriosa, sem mancha ou ruga, do vencedor. Mas então, o que foi que caracterizou a vida e o ministério do apóstolo Paulo? Ele guardou e sustentou uma revelação completa do Senhor para o povo do Senhor. Ele nunca se contentou com meias verdades, ou com luz e revelação parciais. Ele nunca diria: ‘Vamos nos contentar com as coisas simples e deixar todas as outras coisas de lado’.

O Senhor deseja que Seu povo tenha uma revelação completa dEle. Ministraremos para a Sua glória e satisfação quando estivermos verdadeiramente defendendo tudo o que o Senhor deseja para Seu povo.

Isso é muito prático: não aceitaremos nada menos do que TUDO o que o Senhor deseja para nós, e não podemos aceitar nada menos para o povo do Senhor do que isso. Isso é algo que marca um ministério para a glória de Deus.

A outra coisa é defender a vida plena do povo de Deus e ser profundamente e terrivelmente afetado pelo fato de muitos deles não conhecerem realmente a vida em plenitude.

Tenho certeza que isso é verdade com muitos de vocês. O que te afeta, te aflige, o que te faz gemer mais do que qualquer outra coisa é ver pouquíssimas marcas de vida nas pessoas que pertencem ao Senhor.

Sua vida cristã, seu cristianismo, tornou-se preponderantemente numa forma, numa tradição vazia. Você não pode transmitir nada a eles, não pode ajudá-los. Não temos uma base de vida sobre a qual edificar. 

É essencial compreender que um inimigo fez isso. Aquele que tem o domínio da morte está os afetando, colocando-os no cativeiro, anulando seu testemunho. Ministrar para a satisfação de Deus é ter essa preocupação pela vida do povo de Deus e ser tremendamente exercitado nesse sentido. 

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”, disse o Senhor Jesus.

A Igreja deve ser o vaso e o canal dessa vida, e deve assumir esta questão, este supremo interesse do Senhor. Isso ministrará para a satisfação de Deus.

Conhecendo a Glória de Deus

Agora, uma última palavra. Para que a Igreja ministre para a glória de Deus e para que seja uma Igreja gloriosa, a Igreja deve ter um profundo, um terrível senso do que é a glória de Deus. 

A glória de Deus, amados, é Sua santidade, Sua excelência e perfeição moral. A natureza de Deus é descortinada em Sua glória, e ministrar para a glória de Deus significa que devemos ter um senso muito agudo da santidade de Deus. 

Qualquer coisa que seja profana em nosso meio se torna imediatamente uma agonia para nós, uma angústia real. Um germe do mal entrou no corpo e está causando estragos, desordem e dor, e quando algo infecta assim um corpo humano saudável, todo o sistema imunológico defende o corpo desse mal.

Isso é saúde. Saúde é o poder, a vitalidade, a energia de um corpo que é capaz de superar a invasão de doenças. O que é verdadeiro no físico, também deve ser verdadeiro no Corpo espiritual de Cristo. A marca de nossa saúde é percebida quando um agente de doença invade. Nós, no Espírito, sentiremos que isso ocorreu, reagindo imediatamente contra esse ataque na tentativa de expulsar esse mal. Isso se torna uma questão de real preocupação diante do Senhor.

A igreja em Corinto estava em péssimo estado de saúde espiritual porque não levava a sério os males que estavam ocorrendo entre eles, ao ponto do apóstolo ter escrito uma carta severa de exortação para alertá-los. 

Eles não reagiram espontaneamente até receberem aquela admoestação e o estímulo do apóstolo. Mas uma igreja saudável funciona como um corpo saudável. Imediatamente sentirá que há algo errado, reconhecerá aquilo que é contrário à glória de Deus. Nesse caso, ela se levantará e dirá: ‘Isso não pode acontecer! Isso destruirá exatamente aquilo para a qual existimos. Nossa vocação se perderá, pois estamos aqui para ministrar para a glória de Deus’.

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T. Austin Sparks (1888-1971) nasceu em Londres e estudou na Inglaterra e na Escócia. Aos 25 anos, iniciou seu ministério pastoral, que perdurou por alguns anos, até que, depois de uma crise espiritual, o Senhor o direcionou a abandonar aquela forma de ministério, passando a segui-Lo integralmente naquilo que parecia ser “o melhor que Deus tinha para ele”. Sparks foi um homem peculiar, que priorizava os interesses do Senhor em vez do sucesso do seu próprio ministério. Sua preocupação não era atrair grandes multidões, mas ansiava desesperadamente por Cristo como a realidade de sua pregação. Por isso, suas mensagens eram frutos de sua visão e intensas experiências pessoais. Ele falava daquilo que vivenciava, e sofria dores de parto para que aquela visão se concretizasse primeiramente em sua própria vida. Pelo menos quatro linhas gerais podem ser percebidas em suas mensagens: (a) o grandioso Cristo celestial; (b) O propósito de Deus focado em ganhar uma expressão corporativa para Seu Filho; (c) a Igreja celestial – a base da operação de Deus na terra e (d) a Cruz – o único meio usado pelo Espírito para tornar as riquezas de Cristo parte da nossa experiência. Sparks também acreditava que os princípios espirituais precisavam ser estabelecidos por meio da experiência e do conflito, quando finalmente seriam interiorizados no crente, tornando-se parte de sua vida. Sparks desejava que aquilo que recebeu gratuitamente fosse também assim repartido, e não vendido com fins lucrativos, contanto que suas mensagens fossem reproduzidas palavra por palavra. Seu anseio era que aquilo que o Senhor havia lhe concedido pudesse servir de alimento e edificação para os seus irmãos. Suas mensagens são publicadas ainda hoje no site www.austin-sparks.net e seus livros são distribuídos gratuitamente pela Emmanuel Church.

“Nenhum homem é infalível e ninguém ainda ”obteve a perfeição”. Muitos homens piedosos precisaram se ajustar, seguindo um senso de necessidade, após Deus lhes haver concedido mais luz.” (De uma Carta do Editor publicada pela primeira vez na revista “A Witness and A Testimony“, julho-agosto de 1946).

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