Uma hora com George Muller é a tradução do relato da entrevista de uma hora do pastor Charles R. Parsons com o idoso George Muller.
George Muller (1805-1898)
“Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre.” (Hebreus 13:7,8)
O pastor Charles R. Parsons relata uma entrevista de uma hora com George Mueller perto do fim de sua vida:
Em dia quente de verão, caminhava lentamente pelos bosques sombreados de Ashley Hill, Bristol. No topo, meu olhar se voltou para os imensos edifícios que abrigam mais de dois mil órfãos, construídos por um homem que deu ao mundo a mais impressionante lição de fé já vista.
A primeira casa ficava à direita, e ali, entre seus parentes, em apartamentos simples e despretensiosos, morava o patriarca, George Mueller. Ao passar pelo portão da casa, parei um instante para observar a Casa nº 3, uma das cinco construídas ao custo de 600.000 dólares.
A campainha foi atendida por um órfão que me conduziu por uma alta escadaria de pedra até um dos aposentos privativos do admirável fundador daquela grande instituição. O Sr. Mueller havia atingido a notável idade de noventa e um anos. Enquanto estava em sua presença, a admiração me invadiu a mente. “Diante das cãs te levantarás, e honrarás a presença do ancião” (Lv 19:32).
Ele me recebeu com um aperto de mão cordial e me deu as boas-vindas. É impressionante ver um homem por meio de quem Deus realizou uma obra poderosa: é ainda mais ouvir o tom de sua voz; muito maior do que qualquer um dos dois é o privilégio de ser posto em contato imediato com seu espírito e sentir o sopro cálido de sua alma inspirando a sua.
A comunhão daquele momento ficará gravada em minha memória enquanto durar a minha vida. Este servo do Altíssimo abriu seu coração para mim, aconselhou-me, orou comigo e me deu sua bênção.
Naquele momento, a fonte da grande força espiritual de George Mueller se manifestou claramente. O idoso santo, com todas as suas faculdades intactas, foi eloquente o tempo todo sobre um tema: o louvor a Jeová, o grandioso Deus que ouve e responde as orações do Seu povo. Minhas palavras foram poucas.
“O Senhor sempre foi fiel à Sua promessa com você, Sr. Mueller?”
“Sempre! Ele nunca me falhou! Por quase setenta anos, todas as necessidades relacionadas a esta obra foram supridas. Os órfãos somaram nove mil e quinhentos, desde o início das operações até agora, mas nunca faltou-lhes nenhuma refeição. Centenas de vezes começamos o dia sem um centavo, mas nosso Pai Celestial enviou suprimentos no momento em que realmente eram necessários.
Nunca houve um momento em que não tivéssemos uma refeição saudável. Durante todos esses anos, pude confiar somente no Deus vivo. Em resposta à oração, US$ 7.500.000 foram enviados a mim. Precisamos de até US$ 200.000 em um ano, e tudo chegou quando necessário. Ninguém jamais poderá dizer que lhe pedi um centavo. Não temos comitês, nem cobradores, nem votação, nem doação. Tudo veio em resposta à oração de fé. Deus tem muitas maneiras de mover os corações dos homens em todo o mundo para nos ajudar. Enquanto oro, Ele fala a um e a outro neste continente e naquele para nos enviar ajuda. Só na outra noite, enquanto eu estava pregando, um cavalheiro escreveu um cheque de uma grande quantia e me entregou quando o culto terminou.”
“Li sobre a sua vida, Sr. Mueller, e notei o quanto a sua fé foi testada em alguns momentos. Ainda é assim agora?”
“Minha fé está sendo testada mais do que nunca, e minhas dificuldades são maiores do que antes. Além de nossas responsabilidades financeiras, precisamos encontrar constantemente colaboradores adequados, e providenciar lugares para centenas de órfãos que constantemente deixam seus lares. Muitas vezes, nossos fundos ficam muito baixos. Na semana passada, estávamos quase no fim de nossos suprimentos. Chamei meus amados colaboradores e disse a eles: ‘Orai, irmãos, orai!’ Imediatamente nos enviaram quinhentos dólares, depois mil, e em poucos dias chegaram sete mil e quinhentos. Mas temos que orar sempre, crer sempre. Oh, como é bom confiar no Deus vivo, pois Ele disse: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13:5). Espere grandes coisas de Deus, e grandes coisas você terá. Não há limites para o que Ele é capaz de realizar. Louvado seja o Seu glorioso nome para sempre! Louve-O por tudo! O louvei muitas vezes quando Ele me enviava dez centavos, e O louvei da mesma maneira quando Ele me enviou sessenta mil dólares.”
“Suponho que você nunca pensou em um fundo de reserva?”
“Fazer isso seria um ato da maior tolice. Como eu poderia orar se tivesse reservas? Deus diria: ‘Traga essas reservas, George Mueller’. Oh, não, eu nunca pensei em tal coisa. Nosso fundo de reserva está no Céu. O Deus vivo é a nossa suficiência. Confiei nEle por um dólar, confiei nEle por milhares, e nunca confiei em vão. ‘Bem-aventurado o homem que nele confia’ (Sl 34:8).”
“É claro que você nunca pensou em economizar para si mesmo?”
Não esquecerei facilmente nem tão cedo a maneira digna com que fui respondido por este poderoso homem de fé. Até então, ele estivera sentado à minha frente, com os joelhos próximos aos meus, as mãos entrelaçadas, os olhos revelando um espírito calmo, tranquilo e meditativo. Na maior parte do tempo, inclinava-se para a frente, com o olhar fixo no chão. Mas agora estava sentado ereto e, por vários momentos, examinou meu rosto com uma seriedade que parecia penetrar minha alma. Havia grandeza e majestade naqueles olhos límpidos, tão acostumados a visões espirituais e a contemplar as profundezas de Deus. Não sei se a pergunta lhe soou sórdida ou se tocou um resquício persistente do “velho eu” ao qual ele alude em suas mensagens. De qualquer forma, não havia sombra de dúvida de que ela despertou todo o seu ser. Após uma breve pausa, durante a qual seu rosto era um sermão e as profundezas de seus olhos claros flamejaram, ele desabotoou o casaco e tirou do bolso uma bolsa antiga com argolas no meio, separando as moedas. Colocando-a em minhas mãos, disse baixinho: “Tudo o que possuo está nesta bolsa — cada centavo! Guardar para mim? Nunca! Quando me enviam dinheiro para meu uso pessoal, eu o passo para Deus. Até cinco mil dólares já foram enviados de uma só vez; mas não considero tais presentes como meus; eles pertencem Àquele a quem pertenço e a quem sirvo. Guardar para mim? Não ouso economizar; isso desonraria meu amoroso, gracioso e todo-generoso Pai.”
Devolvi a bolsa ao Sr. Mueller. Ele me contou a quantia que continha e o quanto ele mesmo havia doado ao Orfanato e à Instituição de Conhecimento das Escrituras. No entanto, não tenho permissão para revelar esses assuntos, assim como alguns outros.
Havia um brilho de santo entusiasmo no rosto deste homem idoso e fiel ao relatar alguns dos incidentes relativos às suas viagens de pregação em quarenta e dois países diferentes* e como, viajando de um lugar para outro — em alguns casos a milhares de quilômetros de distância — todas as suas necessidades foram supridas. Centenas de milhares de homens e mulheres de quase todas as nações vieram ouvi-lo, e seus grandes temas eram a mensagem simples da salvação e o encorajamento dos crentes a confiarem no Deus vivo. Ele me disse que orava mais por seus sermões do que por qualquer outra coisa e que muitas vezes o texto não lhe era dado até que ele subisse as escadas do púlpito, embora tivesse orado por ele a semana toda. [*O Sr. Mueller começou suas viagens quando tinha 70 anos e continuou até os 87 (de 1875 a 1892).]
Perguntei se ele passava muito tempo de joelhos.
Horas todos os dias. Mas eu vivo em espírito de oração; oro enquanto caminho, quando me deito e quando me levanto. E as respostas sempre chegam. Dezenas de milhares de vezes minhas orações foram atendidas. Quando me convenço de que algo está certo, continuo orando até a resposta chegar. Eu nunca desisto!
Essas palavras foram ditas em tom exultante. Havia nelas um tom de triunfo, e o semblante do homem brilhava de santa alegria. Ele se levantou enquanto as pronunciava e caminhou até a lateral da mesa.
“Em resposta às minhas orações, milhares de almas foram salvas”, continuou ele. “Encontrarei dezenas de milhares delas no céu.”
Houve outra pausa. Não fiz nenhum comentário, e ele continuou: “O importante é nunca desistir até que a resposta venha. Tenho orado todos os dias, há cinquenta e dois anos, por dois homens, filhos de um amigo da minha juventude. Eles ainda não se converteram, mas se converterão! Como poderia ser de outra forma? Existe a promessa imutável de Jeová, e nela eu descanso. A grande falha dos filhos de Deus é que eles não continuam em oração; eles não continuam orando; não perseveram. Se desejam algo para a glória de Deus, devem orar até obtê-lo.”
“Oh, quão bom, bondoso, gracioso e condescendente é Aquele com quem temos que lidar! Ele me deu, indigno como sou, infinitamente mais do que tudo o que pedi ou pensei! Sou apenas um homem pobre, frágil e pecador, mas Ele ouviu minhas orações dezenas de milhares de vezes e me usou como instrumento para trazer dezenas de milhares de almas ao caminho da verdade nesta e em outras terras. Esses lábios indignos proclamaram a salvação a grandes multidões, e muitíssimas pessoas creram para a vida eterna.”
Perguntei ao Sr. Mueller se, quando iniciou a obra, ele tinha alguma ideia de como ela se desenvolveria. Depois de falar sobre seu início na Rua Wilson, ele respondeu: “Eu só sabia que Deus estava presente e guiando Seu filho por caminhos inexplorados e desconhecidos. A certeza de Sua presença era meu sustento.”
“Não posso deixar de notar a maneira como você fala de si mesmo”, disse eu, consciente de que estava abordando um assunto ao mesmo tempo terno, sagrado e intimamente ligado aos seus mais profundos estados de espírito e à sua relação pessoal com Deus, e quase me repreendi assim que as palavras foram proferidas. Ele desarmou meus medos exclamando: “Só há uma coisa que eu mereço, e essa coisa é o Inferno! Digo-lhe, meu irmão, é a única coisa que eu mereço. Por natureza, sou um homem perdido, mas sou um pecador salvo pela graça de Deus. Embora por natureza pecador, não vivo em pecado. Odeio o pecado; odeio-o cada vez mais, e amo a santidade cada vez mais.”
“Suponho que, ao longo de todos esses longos anos de trabalho para Deus, você tenha se deparado com muitas coisas que o desanimaram”, eu disse.
“Enfrentei muitos desânimos, mas em todos os momentos minha confiança esteve em Deus”, foi a resposta. “Na palavra da promessa de Jeová minha alma descansou! Oh, como é bom confiar nEle; Sua Palavra nunca volta vazia! ‘Faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor.’ (Is 40:29). Isso se aplica também aos meus ministérios públicos. Sessenta e dois anos atrás, preguei um sermão pobre, seco e estéril, sem nenhum conforto para mim e, como eu imaginava, sem nenhum conforto para os outros. Mas, muito tempo depois, ouvi falar de dezenove casos distintos de bênçãos resultantes daquele sermão.”
Contei a ele algumas coisas que me desanimavam e expressei minha esperança de ser mais usado por Deus.
“E você será usado por Deus, meu irmão”, exclamou ele. “O próprio Deus o abençoará! Continue perseverando!”
“Posso me aventurar a pedir que você me dê uma palavra de conselho especial em relação ao meu próprio trabalho para Deus”, perguntei, “para que eu possa transmiti-lo a outros obreiros cristãos no grande campo de colheita de almas?”
“Procure depender inteiramente de Deus para tudo”, respondeu ele. “Entregue a si mesmo e ao seu trabalho nas mãos Dele. Ao pensar em qualquer novo empreendimento, pergunte-se: Isso é agradável à mente de Deus? É para a Sua glória? Se não é para a Sua glória, não é para o seu bem, e você não deve se envolver com isso. Lembre-se disso! Tendo decidido que determinado caminho é para a glória de Deus, comece-o em Seu nome e continue nele até o fim. Empreenda-o em oração e fé, e nunca desista!
E não te apegues à iniquidade no teu coração. Se o fizeres, o Senhor não te ouvirá. Mantém isso sempre diante de ti. Confia, pois, em Deus. Depende somente dEle. Espera nEle. Crede nEle. Espera grandes coisas dEle. Não desfaleças se a bênção tardar. E, acima de tudo, confia somente nos méritos do nosso adorável Senhor e Salvador, para que, segundo eles e nada de teu próprio mérito, as orações que fizeres e o trabalho que fizeres sejam aceitos.
Não tinha uma palavra para responder. O que havia para dizer? Meus olhos estavam cheios de lágrimas, e meu coração transbordava, e além disso – Havia um maravilhamento mudo que não ousava se mover, todo o céu silencioso do amor.
De outro cômodo, o Sr. Mueller trouxe um exemplar de sua biografia, no qual inscreveu meu nome. Sua ausência me deu a oportunidade de dar uma olhada no apartamento. A mobília era da mais simples descrição, útil e em harmonia com o homem de Deus que estivera falando comigo. É um grande princípio de George Mueller que não convém aos filhos de Deus serem ostentosos em estilo, decoração, vestimenta ou modo de vida. Ele acredita que gastos e luxo não são apropriados para aqueles que são discípulos professos dAquele que é manso e humilde e não tinha onde reclinar a cabeça. Sobre uma escrivaninha, havia uma Bíblia aberta, em letra legível, sem anotações ou referências.
Pensei que esta era a morada do homem mais poderoso, espiritualmente considerado, dos tempos modernos — um homem especialmente criado para mostrar a uma era fria, calculista e egoísta as realidades das coisas de Deus e para ensinar à Igreja o quanto ela poderia ganhar se fosse sábia o suficiente para segurar o braço onipotente de Deus.
Eu estava com esse príncipe da oração havia uma hora inteira, e apenas uma vez alguém bateu à sua porta. Foi aberta pelo Sr. Mueller, e lá estava uma de suas órfãs — de uma das maiores famílias da Terra — uma moça loira. “Minha querida”, disse ele, “não posso atendê-la agora. Espere um pouco e eu a verei.” Assim, tive o privilégio de permanecer ininterrupto com esse homem de fé, esse homem que prevalece com Deus, esse viajante de noventa e um anos na áspera peregrinação da vida — um homem que, como Moisés, fala com Deus como um homem fala com seu amigo. Para mim, foi como uma das horas em que o Céu desceu à Terra.
Sua oração foi curta e simples. Ajoelhando-se, ele disse: “Ó Senhor, abençoa este querido servo que agora está diante de Ti cada vez mais, cada vez mais, cada vez mais! E guia graciosamente a sua pena no que ele escrever a respeito desta Tua obra e da nossa conversa de hoje. Peço-o pelos méritos do Teu querido Filho, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Amém!”
Vida e obra de George Mueller
O autor da entrevista fornece os seguintes detalhes sobre a vida de George Mueller:
O fundador do Orfanato Ashley Down, em Bristol, Inglaterra, nasceu na Prússia em 17 de setembro de 1805. Em sua juventude, viveu uma vida profana, mas aos 21 anos converteu-se repentinamente a Deus em uma reunião de oração realizada na casa de um comerciante piedoso. Pouco depois, chegou à Inglaterra, sem trazer consigo cartas de apresentação, dinheiro, nome, recomendações e apenas um conhecimento muito imperfeito da língua inglesa. O que, então, trouxe consigo? Trouxe Deus consigo. Logo após desembarcar, escreveu em seu diário: “Toda a minha vida será um serviço ao Deus vivo”. Seus princípios estavam profundamente enraizados nas Sagradas Escrituras, e ele os seguiu ao longo de sua longa vida. Nunca pediu e nunca insinuou que precisava de ajuda a ninguém. Somente em resposta à oração de fé, mais de um milhão e meio de libras esterlinas (US$ 7.500.000) foram enviados a ele para a construção e manutenção do “Orfanato de Deus”, para seus empreendimentos missionários e para a circulação das Escrituras.
Em suas casas, dez mil órfãos desamparados foram recebidos, treinados, educados e enviados ao mundo.
Na velhice, ele viajou quase trezentos mil quilômetros em quarenta e dois países, pregando o Evangelho a três milhões de ouvintes.
Tendo assim servido a Deus em seus dias e geração, seu espírito, como o de Moisés, se despediu desse mundo com um beijo de Jeová, quando estava sozinho em seu quarto, na manhã de 10 de março de 1898. Sua idade era de noventa e três anos.
“Ele te pediu vida, e tu lha deste; sim, longevidade para todo o sempre.” (Sl 21:4).






